ESSA PARTE É CONTADA PELA ALICE
Eu acordei na minha cama, com outra roupa. Meu celular estava programado para despertar as 6, não me lembro de ter feito isso também. Olhei a minha volta, a bolsa que usava na noite passada estava na escrivaninha, minhas chaves ao lado dela. Eu não conseguia me lembrar de nada. Bem, me lembro de entrar na casa de Johnny, beijá-lo. Decidi ir para a aula.

- Um café forte. - Disse para a moça da lanchonete.
- Noite difícil? - Ela disse me servindo.
- Queria poder me lembrar. - Eu estava 20 minutos adiantada para a aula.
- Essas são as piores, quando você se lembrar, rezará para esquecer. - Ela me tratava como se eu fosse uma adulta, acho que era porque o meu casado tampava a blusa do meu uniforme. Eu parecia mesmo uma adulta, rancorosa com o ex, sem saber o que tinha feito na noite anterior, cansada, derrotada.
- O que eu faço nessas horas hein?
- Você finge que nada aconteceu.
- E se eu não conseguir?
- Então você chora, mas não gaste todas as suas lagrimas. As pessoas por quem vale a pena chorar, são aquelas que trazem lagrimas de alegria.
- Isso é bonito, pena que na vida real as coisas são um pouco diferentes.
- As coisas não se resolvem por mágica, a não ser que você comece a acreditar em magia.
Eu paguei o café e fui em direção a escola, passei o dia inteiro agonizada por não esbarrar com Johnny, até que chegou o ultimo horário. Era a aula dele. Eu não prestaria atenção, nem mesmo se tentasse.

ESSA PARTE É CONTADA PELA CLARA
Eu e Larissa estavamos comendo no intervalo, quando Ian veio falar comigo.
- Nós podemos conversar?
- Já conversamos, várias vezes.
- Eu estou preocupado com você.
- Porque?
- Você acha que eu não vejo as marcas nos seus pulsos?
A verdade é que eu não tinha parado com aquele hábito de me cortar. Era engraçado como aquilo desviava a minha dor. Eu não estava sozinha mais, tinha Larissa, ela era minha melhor amiga. Mas não conseguia perdoar Ian. Lívia não saia do meu pé e então quando eu me cortava eu encontrava uma preocupação mior do que as futilidades da sociedade em que eu vivia. Eu pensava “bem, eu estou ferida, tenho que pensar em aliviar esta dor”. Aquilo me trazia alguns momentos de paz, por enquando a ferida cicatrizava, eu podia me dar ao luxo de esvaziar a minha cabeça. Aquela dor era menor, e eu tinha certeza de que iria passar com um pouco de merthiolate.
- Isso não é da sua conta.
- Sua irmã não está vendo porque está frio, você fica com essas blusas, mas eu vou contar pra ela. - Ele disse saindo. Segurei a sua mão por impulso e preocupada por Larissa ouvir a conversa toda.
- Pare de fingir que se importa. Volta pra sua namoradinha.
- Sério mesmo que você tá brava por causa da Lívia.
- Não, eu estou brava por você ser um idiota. - Eu disse ao sair correndo. Logo percebi que todos no refeitório haviam parado pra ouvir a nossa discussão. Logo Lívia foi consolá-lo, e quando olhei para trás, ela deu um beijo nele. Que vadia! Porque ele deixou isso acontecer?

ESSA PARTE É CONTADA PELO JOHNNY
Evitei conversar com Alice o dia inteiro. Era óbvio que ela queria conversar sobre a noite passada, mas eu não sei se teria coragem de admitir que errei novamente.  Cheguei em casa e logo o telefone tocou.
- Alô?
- Johnny… - Eu poderia reconhecer essa voz em qualquer lugar, Alice…
- Quem te deu o meu número?
- Isso importa mesmo?
- Não…
- O que aconteceu ontem a noite?
- Como assim? - Então ela não se lembra… Eu devia ter imaginado.
- Você sabe do que eu estou falando, pelo amor de Deus, a gente se beijou, eu me lembro de ter entrado na sua casa.
- Nada aconteceu Alice. - Eu arrisquei mentir, talvez ela acreditasse.
- Eu acordei na minha casa, com outras roupas.
- Nós nos beijamos, depois fomos pro meu quarto. Você se deitou na cama e dormiu.
- Porque você me levou pra minha casa? Se foi só isso…
- Eu não sei porque, ok?
- Me conta a verdade.
- Essa é a verdade Alice. Nada aconteceu.

Acho que eu gritei nessa ultima parte, ela desligou na minha cara ou a ligação caiu, pois logo o telefone voltou a tocar. Quando atendi, aquela não era a voz que eu queria ouvir.
- Olá Johnny.
- Quem é?
- Não finja que não sabe quem eu sou ou que não sentiu minha falta.
- Amanda? Quem te deu esse número?
- Pra quem não se lembra, você está bem esperto.
- O que você quer? Nós não podemos nos ver.
- Você sabe que eu te amo, não é Johnny?
- Esquece o que aconteceu entre nós foi só uma aventura, você não me ama.
- Ok, eu menti, mas eu sinto sua falta. Sabe eu quase tive um ataque quando vi aquela garotinha entrar na sua casa no meio da noite.
- Você está na cidade? Está me vigiando?
- Muitas perguntas, nenhum esclarecimento. Você não mudou nada meu amor. - Ela enfatizou o ‘meu’. - Sabe, imagina o que vão fazer quando descobrirem o que você anda fazendo com pobres garotinhas do terceiro ano, de novo…
- Nada aconteceu, ela estava bêbada.
- Não é pra mim que você tem que se explicar. Você destruiu a minha vida Johnny, me fez parecer uma louca pscicótica.
- Você está me vigiando, o que isso faz de você?
- Alguém com um propósito.
- Vingança? Eu nunca te fiz nada de mal.
- Você me fez acreditar que me amava, nós passamos uma noite juntos Johnny, você não teve um deja-vu noite passada com a garotinha não?
- Ela é diferente…
- Nossa, agora você parece o apaixonado da história. Ja contou a ela?
- O que?
- A nossa história? Sabe, me disseram por ai que você mentiu pra ela, ou melhor, omitiu algumas partes da nossa história.
- Você andou conversando com ele nao é?
- Claro, ele só quer o bem de todos, seu, da pobre menininha e o meu, é claro.
- Dê um recado a ele por mim, sim? Diga que se ele se importa tanto com Alice, ele deveria parar de mentir pra ela.
- Ele falou que você faria uma ameaça assim. Ele disse pra te lembrar em quem ela vai acreditar, quando souber toda a verdade.
- Em quem ela ama. - Disse desligando o telefone.
Ela me ama? Será?


Página 1 de 1